A linha da vida

Ora, que toda a gente sabe que São João da Talha está a modernizar-se, é um facto. São João da Talha está a tornar-se o espelho de uma sociedade mais civilizada, com mais objectivos e uma visão direccionada para o futuro. Consequentemente os seus habitantes cada vez mais instruídos gozam de um bem-estar de vida mais elevado, depois se já não bastava o Centro de Saúde temos o Quartel da GNR mesmo em cima. Porém ultimamente preocupo-me mais com o facto em que a nossa vida tem que estar preparada e programada. É uma situação em que se pode barafustar mas não podemos fugir.
Qualquer jovem moderno já sabe o que fazer da vida. Já tem uma extensiva lista dos cursos e escolas que vai frequentar durante a sua juventude para chegar ao seu propósito, começar a tirar carta enquanto novos, comprar uma casa ou um carro de preferência, a crédito.
Os planos estão todos traçados como que uma formiguinha que carrega uma semente caída no chão e a leva para o abrigo.
Mas como formiga velha gosta de erva tenra, ainda existem algumas formigas perdidas no regresso a casa, essas formigas ainda são uma das pérolas perdidas que vivem entre nós. São uns tugas à moda antiga. E felizmente eu conheço uma dessas pérolas, formiguinha desamparada e sem lugar nesta sociedade. Passarei a referir-me a essa entidade como ‘Sr. Osvaldo’, e não, ele não é novo, longe disso, no entanto ele confessa que foi sempre imaturo.
Os seus cinquenta e tal anos já deixaram marcas na cara assim como a água deixa numa escarpa mas, tal e qual à água, o seu bem-estar é dos mais simples e transparentes. Ele simplesmente inunda tudo ao seu redor de palhaçadas e brincadeiras.
Ainda me lembro das conversas que tinha com ele, eu e mais uns quantos amigos meus ouvíamos aquele homem nas tardes húmidas de verão assim como os pupilos ouvem o seu mestre.
Bem, a vida do Sr. Osvaldo resume-se a três aspectos chaves: foi combatente no ultramar, foi segurança de um bar de prostitutas durante dez anos e tem a mentalidade de um rapaz de vinte anos. E a esta altura o pasmado leitor deve estar a pensar, ‘bom mas isso não faz dele um tuga à moda antiga, Emanuel’. Errado! Porque ele também era fã indiscutivel da entremeada e do bom chouriço assado no porco! As estórias de vida que este homem tem fazem esquecer o tempo e uma das quais ainda me faz pensar mas isso fica para outro post…
Se bem que este homem tenha tido uma vida atribulada confessa ter gostado, mas admite que não gostava que o mesmo acontece-se aos filhos e afirma cinicamente que a sociedade está demasiado moldada, linear e não dá muita escolha.
Será isto verdade? Os membros da sociedade cada vez mais optam pela via segura porque é essa a que mais convém e a cada ano que voa a sociedade exige mais de nós.
Somos perdidos num buraco negro e são estes indivíduos que nos salvam do escuro e relembram-nos que a vida também é feita de simples prazeres.

Sr. Osvaldo: Os simples prazeres podem ser encontrados em todo lado, seja em casa, na rua, nos estudos e até no emprego. Basta saber aproveita-los.

2 respostas para 'A linha da vida'

  1. pacithapis Diz:

    gostei muito do teu texto :) Acho que às vezes as pessoas têm medo de aproveitar a vida, e isso é ainda mais assustador. beijinho*

  2. Casino 1250251085 Diz:

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